Vozes da latinidade no universo da globalização
(30/03/2001 – Jornal Brasileiro de Ciências da Comunicação - JBCC)
A integração cultural e econômica dos povos latinos, como forma de resistir aos efeitos negativos da globalização, foi defendida por políticos e intelectuais que participaram da abertura do seminário internacional "Vozes Universais da Latinidade", na Universidade Candido Mendes, no Rio de Janeiro, no dia 22 de março de 2001.
Para uma platéia de cerca de 500 pessoas que lotou o auditório da Universidade, o Vice-Presidente do Brasil, Marco Maciel, alertou sobre o poder dos novos meios de informação que tendem a difundir valores e interesses dos paises desenvolvidos e os elegem como preferência mundial.
- A globalização induz à uniformização de hábitos e preferências em beneficio dos paises que se sobressaem na estrutura do poder internacional. Com esse pano de fundo, projetos como "Vozes Universais da Latinidade" representam a tentativa de resgate de idiomas, valores, preferências e culturas que não podem e nem devem ser esquecidas, sob pena de deixar perder-se uma herança cultural acumulada há milênios - disse o vice-presidente.
O ex-presidente de Portugal Mario Soares, o ministro da Cultura da Argentina, Francisco Delich, os acadêmicos Celso Furtado, Nelida Piñon e Sergio Paulo Ruanet e Federico Mayor, presidente da Academia da Latinidade, que promove o evento com a Universidade Candido Mendes, são algumas dos palestrantes e debatedores do seminário, que se realizou nos dias 22-24 de março, tendo ainda a presença do secretario municipal de Culturas, Artur da Tavola, do escritor argentino Ernesto Sabato e do escritor paraguaio Augusto Roa Bastos O escritor mexicano Carlos Fuentes cancelou sua participação.
Ao defender iniciativas para aproximar os povos latino-americanos, o ministro argentino Francisco Delich disse que o português passará a ser ensinado nas escolas argentinas.
- Essa é a língua do país vizinho, a língua do Mercosul - afirmou Delich, em referencia ao bloco econômico formado pelos paises do Cone Sul.
A globalização, segundo Mário Soares, é um fenômeno positivo. No entanto, tem conseqüências perversas que precisam ser combatidas:
- É preciso resistir ao rolo compressor anglo-saxão, ao inglês como língua universal. Não me refiro ao inglês de Shakespeare, mas ao inglês básico, em contratos via internet, estereotipado, sem sutileza e sem complexidade de pensamento - disse Soares.
Federico Mayor, ex-diretor geral da Unesco, também foi enfático em seu discurso, no qual afirmou que os investimentos em educação e a participação popular constante são fundamentais para a sobrevivência das democracias genuínas e para a criação de grandes redes de instituições latinas.
- Temos que usar essas vozes para enfrentar o vendaval de forcas que querem nos submeter, nos fazer paises submetidos, subdesenvolvidos - afirmou Mayor.
Para Candido Mendes, o mundo globalizado vive a cultura do instante, superficial. No futuro, diz ele, a latinidade poderá emergir, com a derrocada da globalização:
- A latinidade tem quer ser educada para esperar o colapso da globalização e manter os valores que estão sendo destruídos agora. Nos só temos o Ocidente porque os gregos e o helenismo sobreviveram ao Império Romano. Teremos um segundo ocidente atlântico, se a latinidade sobreviver 'a globalização anglo-saxão.
O escritor mexicano José Maria Perez Gay, o cientista social uruguaio Enrique Larreta e o acadêmico e economista Celso Furtado foram alguns dos participantes dos debates.
(Fonte: Jornal da Ciência Hoje, 23/3/2001)