Um olhar para a latinidade
(27/03/2001 – JB Online)
Dono de teorias polêmicas sobre a pós-modernidade, o filósofo italiano Gianni Vattimo nunca se considerou um pensador catastrofista. Jamais quis ser um pessimista com relação ao amanhã. Entretanto, sua análise dos efeitos da globalização sobre os povos latinos não é lá muito animadora. ''Pensar o futuro hoje é visualizar uma necessidade sempre maior do conhecimento do inglês e uma unificação cada vez mais intensa de costumes, a partir dos conceitos de seus cânones anglo-saxônicos'', diz. Em visita ao Rio, semana passada, para uma palestra no seminário internacional Vozes universais da latinidade, realizado na Universidade Candido Mendes, no Centro, o consagrado autor de O fim da modernidade (Martins Fontes) conversou com o JORNAL DO BRASIL sobre a difusão global do idioma, da cultura anglo-americana e da ameaça aos costumes locais dos povos latinos.
Sempre fazendo uso dos aforismas de Friedrich Nietzsche (1844-1900), Vattimo comentou a incorporação de termos da língua inglesa pelos demais idiomas, associando-a a um processo de dominação sócio-econômico. ''Estamos em um mundo que se angliciza. Basta ver que grande parte dos softwares de computador requer conhecimento do inglês. Não creio que haja versões deles em português com grande difusão. Em italiano, então, nem pensar'', brinca o teórico, nascido em Turim em 1936.
Acostumado a análises da indústria cultural contemporânea, Vattimo atribui o excesso de anglicismos no vocabulário dos povos latino-americanos e europeus ao consumo maciço da arte cinematográfica dos Estados Unidos. ''Quando se pensa na indústria cultural dos EUA verifica-se que uma das vozes mais fortes, creio que a segunda, no processo de exportação americana são os filmes de Hollywood. Vistos mundialmente, eles são um dos caminhos que vêm tornando o mundo inteiro um território anglo-saxônico'', afirma.
Criador do pensamento fraco (pensiero debole), filosofia que questiona as certezas da metafísica clássica, Vattimo ganhou prestígio e passou a ser discutido nas universidades de comunicação ao dialogar em seus textos com a idéia de que o mundo pós-moderno é um espaço para a pluralidade de discursos, inclusive a voz das minorias. Por essa crença, passou a repudiar a exclusão - ''ninguém deve ser excluído por qualquer razão''- e defender pensamentos mais abertos, esclarecidos. De acordo com sua teoria, a dominação cultural americana não representa um sistema simbólico definido e acabado, oferecendo brechas para expressões culturais de outrem. ''Não podemos ser pessimistas sobre nossa cultura. Ainda que a língua inglesa acabe dominando o mercado de bens simbólicos, sempre vamos ter nossas obras traduzidas. Até hoje podemos ler poesia de Safo, que foi escrita em grego'', destaca, referindo-se à poetisa da Ilha de Lesbos, na Grécia.
Fazendo apostas otimistas para o século que começa, Vattimo acredita que o comportamento dos povos latinos é o mais adequado às atuais modificações que ocorrem no pensamento científico. ''O mundo anglo-saxônico produziu a cultura moderna, a da racionalização industrial, que predominou no século 20. Agora que vivemos o declínio da grande indústria mecânica e o começo do trabalho virtual, creio que a espiritualidade latina é mais adequada para desfrutar o mundo de liberdades individuais da pós-modernidade do que a rigidez dos povos ingleses e germânicos'', aponta.
Para alcançar esse futuro e encarar a evolução do processo de globalização, Vattimo cobra a força do pensamento universitário. ''Como membro da academia, creio que nós devemos promover a difusão do estudo da latinidade, para sermos capazes de reivindicar uma certa preferência por ela em lugar de influências importadas. É papel da universidade desenvolver uma teoria atual e ativa dos valores da cultura latina'', sugere.