Perfil: Gianni Vattimo
(2002 - www.eco.ufrj.br)
O filósofo italiano Gianni Vattimo se tornou presença obrigatória em Encontros e Seminários realizados na cidade. Em junho de 2002, foi o encarregado pela conferência "Comunicação e Transparência" na abertura do 11° Encontro Anual da Associação Nacional dos Programas de Pós-graduação em Comunicação e, em setembro, foi palestrante do Seminário internacional "Latinidade e Herança Islâmica", promovido pela Academia da Latinidade e pela Universidade Candido Mendes em ocasião do aniversário de um ano do apocalíptico 11 de setembro. Mas quem é este filósofo tão disputado pela inteligentsia nacional?
Gianni Vattimo nasceu em Turim, no norte da Itália, em cuja universidade se formou em filosofia e ensina até hoje após uma especialização na Universidade de Heidelberg, Alemanha, e algumas passagens por universidades americanas como professor visitante. Autor de "O Fim da Modernidade" (ed. Martins Fontes) e "Acreditar em Acreditar (Relógio d'água), entre outras obras - nove traduzidas para a língua portuguesa - Vattimo também é Deputado no Parlamento Europeu, integrando várias comissões como as de cultura, educação e justiça, entre outras.
Mas engana-se quem pensa que por detrás de um currículo tão extenso e de uma agenda lotada de compromissos ao redor do globo, está um filófoso posudo e inacessível. Muito pelo contrário, Vattimo está sempre bem humorado e pronto para demonstrar o quanto é naturalmente gentil e modesto
Em seu último seu livro "Dopo la Cristianità - per un Cristianesimo non religioso" (Garzanti ed.), lançado na Itália em fevereiro e que ainda não chegou ao Brasil, ele dá algumas pistas sobre seu percurso paradoxal: o de ter reencontrado o cristianismo através de Nietzsche e Heidegger e de tê-lo reencontrado sob a forma do "acreditar que acredito". O autor conta em seu livro que esta expressão surgiu enquanto falava ao telefone com um antigo professor muito religioso que de repente lhe perguntou : Mas você ainda acredita em Deus ? Resposta : Acredito que acredito ! "Refletindo sobre a minha resposta espontânea, entendi, ou acho que entendi, que este ambíguo significado da fé está ligado à toda a minha experiência de estudioso de filosofia e talvez, de intelectual desta época."
Pode-se dizer que Vattimo é um cristão pós-moderno ? "Há uma frase em italiano que sempre repito e levo muito a sério: sou ateu graças a Deus" , conta em entrevista concedida à revista Cult, em junho deste ano. "Graças ao fato de ser cristão, não acredito mais em um grande número de estruturas dogmáticas. Não sou fundamentalista porque, antes da verdade dos absolutos, dos princípios, há diante de mim um outro que devo amar como a mim mesmo", completa.
Os motivos que o impulsionaram a escolher a filosofia permaneceram bem vivos e definidos em sua obra. "No período do pós-guerra, quando eu tinha uns dez anos, frequentava a igreja e ali se formaram as minhas relações fundamentais com o mundo e com os outros e também o interesse social e político, além de religioso. E foi para corresponder à essa mistura de de interesses que decidi estudar filosofia na faculdade: queria contribuir para a formação de um novo humanismo cristão, livre tanto do individualismo liberal quanto do coletivismo e do determinismo marxistas".
Estudioso do pensamento de Nietsche, Heidegger e Gadamer, Vattimo é conhecido como o mentor do "Pensamento fraco"(pensiero debole) que ele mesmo define como "uma filosofia fundada sobre a idéia do enfraquecimento das estruturas do ser como sentido da emancipação da história humana; emancipação que vai exatamente na direção de um enfraquecimento das estruturas objetivas, ou seja, daquilo que a metafísica chamava o ser." O filósofo propõe uma maior liberdade de reflexão sobre a realidade e o ser opondo-se às certezas da metafísica clássica a respeito do fundamento único da realidade - para construir assim uma filosofia que dá margem à interpretações mais largas (os três grandes mestres da hermenêutica da modernidade, Nietzsche, Freud e Heidegger, estão presentes na idéia de "pensamento fraco"). "Nietzsche e Freud estão presentes sobretudo no sentido de terem demonstrado que aquilo que nos parece ser a verdade é uma interpretação. Não existe verdade objetiva em nenhuma parte; não há ninguém que veja a verdade a não ser com os olhos. Além disso, Heidegger e Nietzsche nos fizeram ver que devemos transformar a idéia de que a verdade não é objetiva numa disciplina do diálogo.
Se eu sei que a verdade não é definitiva, procuro um acordo, procuro escutar os outros, corrigir-me. Esta é a hermenêutica de Heidegger: a idéia de que a verdade acontece no diálogo intersubjetivo". Neste sentido, Vattimo acredita na solidariedade como um dos poucos caminhos que podem salvar o homem na atualidade. "Em um mundo multicultural de religiões e opiniões diversas, a única coisa que ainda pode nos salvar são a caridade e o respeito pelo outro, pois não há nada mais a que possamos nos apegar", sentencia em entrevista cedida à Folha de São Paulo.