Encontro com o futuro
(28/04/2006 – Maria José Nogueira Pinto - Diário de Notícias)
Em Portugal a política doméstica estaria circunscrita, dada a desvalorização crescente das ideias como exercício intelectual, às faltas dos deputados e à inauguração do casino, não fora o facto de, periodicamente, nos enviarem um mensageiro com más notícias. E como não podemos matar o mensageiro, também periodicamente somos obrigados a reflectir sobre a nossa situação, que é o tema das más noticias. A União Europeia, o FMI, a OCDE vêm dizer que, afinal, a despesa pública não parou de crescer e que a economia não parou de degradar-se.
As ideias do Governo até são boas, mas pô-las em prática é indispensável para que alguma coisa aconteça. Ora o Governo não é, nem pode ser, um mero e permanente concurso de ideias, como se compreende. Para além disto, ficamos a saber que a nossa máquina fiscal é a menos eficiente, que o sistema de segurança social está sob forte pressão, que é preciso flexibilizar salários e despedimentos, que o sistema educativo é péssimo e compromete as gerações, que usamos ineficientemente e desperdiçamos alegremente os recursos.
Mas será que não sabíamos já tudo isto? Sabíamos. Mas se dito internamente é um ultraje, se ouvido de fora é apenas uma maçada. Como se a pouca oposição que se faz precisasse de todos estes relatórios para encher o peito e soprar. Em breve nos dirão também como vai a Saúde, a toxicodependência, a sida, a tuberculose… Até lá, para quê pensar nisso…
No nosso discurso velho não cabe, hoje, quase nada do que realmente importa. Só a título de exemplo, em Baku discutiu-se esta semana, no âmbito do Seminário da Academia da Latinidade, a revolução verdadeiramente antropológica que o mundo está a viver. Algo muito diferente da mera revolução histórica. A obsolescência do Homem ante a máquina é uma revolução que, segundo Jean Baudrillard, pode marcar o fim da História e um novo tempo "da inauguração do mundo sem o homem".
Trata-se não já de transformar o mundo, como queria Marx, mas entender as transformações que ocorrem no nosso tempo, de modo vertiginoso, e impedir que elas ocorram dispensando a participação humana.
Quase ao mesmo tempo, em França discutiram-se as desigualdades justas, no âmbito da repartição dos benefícios do progresso: Capacidades? Resultados? Méritos? Necessidades? Que critérios deverão ser utilizados? Por fim, o relatório do Banco Mundial associa definitivamente equidade e desenvolvimento, demonstrando como a falta da primeira compromete irremediavelmente o segundo.
Por cá, deputados faltosos discutem matérias de grande densidade científica e não ouvimos a voz dos cientistas portugueses.
O mundo mudou e mudará ainda mais, e não se revela de forma sistemática um pensamento antropológico e político que defenda o essencial.
Até para coisas tão simples como o aumento das propinas (é isto mesmo a equidade e o desenvolvimento) ou para promover políticas natalistas para fazer face à demografia desgraçada da Europa (e de Portugal) é preciso um relatório da OCDE ou as palavras tão politicamente incorrectas, mas tão verdadeiras de Anna Záborská (presidente da Comissão da Igualdade dos Géneros do Parlamento Europeu) sobre a importância e utilidade das famílias numerosas para o desenvolvimento e a necessidade de políticas familiares de equidade.
Parece que o futuro não nos interessa, e optámos por ficar sentados à porta de Portugal, deixando passar o tempo que não temos.
Neste quadro, o discurso presidencial comemorativo do 25 de Abril foi inovador e importante.
Quando o Presidente da República vira o seu discurso para o futuro.
Quando liga esse futuro com uma apreciação do estado do País onde, como reconhece, "coexistem nichos de modernidade com expressões de indisfarçável arcaísmo social e cultural".
Quando afirma, sem rebuços, que ficámos muito aquém na justiça social.
Quando remete para a classe politica, particularmente para os eleitos, a responsabilidade de melhorar a democracia.
Quando elege, nesta efeméride, como repto nacional, um compromisso sério, alargado e duradouro para a inclusão social.
Fez bem, porque é de futuro que precisamos. Porque não haverá desenvolvimento sem equidade. Porque temos de aprender a dar as más notícias a nós próprios.
E porque todos gostaríamos de ter uma boa resposta para a pergunta de como cresceu a criança do cravo. E, o que é mais difícil, que legado de futuro estamos a construir para as novas gerações.